ATIVIDADE FÍSICA COM MÁSCARA OU SEM MÁSCARA? 

Qual é a forma mais segura de se exercitar? 

Não resta dúvida que é preciso estar muito atento a todas as medidas de enfrentamento da pandemia do COVID-19, causador do Coronavírus. É importante deixar claro que o uso de máscaras de proteção é fundamental para controlar a disseminação da doença e cuidar não só de você, mas também do próximo. E como funciona a atividade física com máscara?

Por ser uma doença nova, ainda surgem algumas divergências quanto ao uso de máscara na atividade física, por conta da influência no desempenho esportivo. Afinal, se deve fazer atividade física com ou sem máscara? Essa medida, durante a prática de exercícios físicos, pode ser prejudicial à saúde? Há máscaras que melhoram o treinamento? 

MÁSCARA QUE POTENCIALIZA O TREINAMENTO (?)

Antes de tratarmos sobre as máscaras normais e amplamente utilizadas, principalmente nesse momento de pandemia, vamos falar sobre uma máscara criada para atividade física com a promessa de potencializar os efeitos do treinamento.

As promessas de recursos para melhoria de desempenho esportivo ou potencialização do treinamento são buscas incessantes da indústria de tecnologia de equipamentos esportivos. Um dos materiais que ganhou notoriedade nesses últimos anos foi uma máscara que simula altitude. Mas será que isso realmente funciona?

As denominadas  “elevation training masks” foram criadas com o objetivo de simular a atividade em grandes altitudes, como se o praticante estivesse fazendo exercício em uma montanha, por exemplo. O princípio básico de funcionamento dessas máscaras consiste na restrição do fluxo de ar, fato que obviamente dificulta a respiração.

A máscara pretende criar o efeito hipóxia, resultando na baixa concentração de oxigênio no sangue (consequência típica das altas altitudes). Contudo, estudos mostram que o uso dessas máscaras reduziu muito pouco a saturação de oxigênio no sangue comparado ao exercício sem máscara, contudo se mostra insignificante o efeito quando comparado pelas altas altitudes.

Embora essas máscaras restrinjam o fluxo de ar, elas não afetam sua composição em termos absolutos, como ocorre em altas altitudes com ar rarefeito e menor absorção de oxigênio pelos pulmões.  Tais máscaras podem reduzir a concentração de oxigênio às custas do aumento das concentrações de gás carbônico, o que não acontece em altas altitudes. Portanto, é incorreto afirmar que tais máscaras simulam altas altitudes.

A utilização dessas máscaras resulta em maior sensação de fadiga, menor resposta de lactato após o exercício, além de aumento em alguns indicadores de fadiga neuromuscular. Alguns estudos mostraram piora de desempenho quando se treina com as máscaras, o que pode sugerir piores adaptações ao treinamento em longo prazo.

Mas é tão ruim assim?

Contudo, alguns estudos que compararam as adaptações ao mesmo protocolo de treinamento com e sem o uso dessas máscaras mostraram haver nenhum prejuízo ao se usar as máscaras, ou ainda respostas ligeiramente superiores quando elas são utilizadas. Foram observadas melhores adaptações dos músculos respiratórios, os quais parecem ser fortalecidos e melhorarem sua função quando se treina com máscaras que aumentam a resistência ao fluxo de ar. Isso se deve pelo fato do aumento da resistência ao fluxo de ar provavelmente exige que os músculos respiratórios trabalhem mais para garantir ventilação adequada durante o exercício.

Sendo assim, a propaganda de simular a alta altitude é enganosa.  Contudo, há uma probabilidade de melhoria da função dos músculos respiratórios, devido à maior exigência dos músculos para obter ventilação necessária. E como funcionam as máscaras “normais” na atividade física?

ATIVIDADE FÍSICA COM MÁSCARA “NORMAL”

Consideramos máscaras “normais” essas utilizadas amplamente pela população, com a proposta de aumentar a proteção da população no controle da disseminação de doenças. E como funciona a utilização dessas máscaras durante a atividade física?

As evidências mostram que há redução na capacidade de trabalho devido a alterações cardiovasculares, respiratórias e térmicas quando estamos utilizando máscara de proteção (Johnson, 2016). Mesmo sendo pouco comentada, a questão térmica é relevante, já que o aumento da temperatura no rosto provoca desconforto, que também é influenciado pela sudorese aumentada. A resistência inspiratória devido à barreira física imposta pela máscara aumenta a participação do metabolismo anaeróbio e induz fadiga de forma mais rápida, especialmente em atividades prolongadas e intensas.

No entanto, o acúmulo de gás carbônico e redução da disponibilidade de oxigênio parecem ser os pontos mais importantes nessa discussão. A queda de desempenho é evidente em treinos com maior intensidade, mas também são visíveis em intensidades mais baixas. O estudo de Roberge et al. (2010) encontrou que não houve mudanças nas respostas fisiológicas ou na percepção de esforço em 1h de caminhada a 4km/h. Porém, os níveis de CO² (gás carbônico) foram maiores e os de O² (oxigênio) foram menores que o recomendado, o que pode gerar acidose com consequentes alterações na respiração, além de fadiga e tontura. 

Dessa forma, não há nenhuma diferença significativa entre as máscaras que simulam altitudes ou as máscaras de proteção. Ambas apresentam dificuldades para respirar, restrição do fluxo de ar e possíveis aumento de fadiga e tontura. Mas a melhor forma é se proteger para que nenhuma doença possa ser disseminada, mas como fazer isso?

ORIENTAÇÕES PARA ATIVIDADE FÍSICA COM MÁSCARAS 

De qualquer forma, é possível praticar exercício físico de forma segura com a orientação de profissionais especializados que vão ajustar a intensidade do treinamento, e existem algumas estratégias que podem ser utilizadas para reduzir o desconforto causado pelas máscaras. 

  • Para exercícios predominantemente aeróbios, realizar em baixa intensidade. 
  • Pode parecer contra intuitivo, mas é possível se exercitar em alta intensidade com variações de HIIT curto, como os tiros de 30s de estímulo e 30s de intervalo.
  • Treinos de velocidade, tiros de 10s, por exemplo, ou com cargas mais elevadas com intervalos de descanso maior.
  • Ter sempre mais de uma máscara disponível para trocar sempre que uma estiver muito molhada. 
  • Respeitar o corpo e entender que o rendimento não será o mesmo comparado ao treino sem máscara. 

O que não é dúvida, nem segredo para ninguém é que fazer exercício físico é fundamental para saúde física e mental, e mais do que nunca, cuidar de si e do próximo deve ser prioridade. 

Referências Bibliográficas:
  • Arthur T. Johnson Respirator masks protect health but impact performance: a review. Johnson Journal of Biological Engineering (2016).
  • Raymond J Roberge MD MPH, Aitor Coca PhD, W Jon Williams PhD, Jeffrey B Powell MSc, and Andrew J Palmiero. Physiological Impact of the N95 Filtering Facepiece Respirator on Healthcare Workers. RESPIRATORY CARE • MAY 2010 VOL 55 NO 5
  • Wearing an N95 Respiratory Mask An Unintended Exercise Benefit?  American Society of Anesthesiologists, Inc. All Rights Reserved. Anesthesiology 2020.

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